:: E.T.C AVESSAIS

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Noite minha

Esta noite milhares dormirão na rua
Eu não.
Nos lençóis descubro minha face nua

Esta noite milhares dormirão sem nome.
Eu não.
No copo da balada grito meu sobrenome.

Esta noite milhares dormirão sem banquete.
Eu não.
A noite vem e alimenta meu palacete.

Esta noite milhares dormirão em seus odores
Eu não.
A noite chega entretida em seus sabores.

Esta noite.
Esta noite milhares de crianças não dormirão.
Eu não.
Eu durmo ao som da minha televisão.

Esta noite milhares dormem em filas dos hospitais.
Eu não.
Eu adormeço entre flores e florais.

Esta noite embala a terra gritando no sertão.
Aqui não.
Eu rego as horas acordando na ilusão.

Esta noite abraça homens e filhos na lida da cana.
Aqui não.
Eu fechei a casa e li as mãos numa cigana.

Esta noite carrega a guerra e seus feridos
Aqui não.
Eu recebo os amigos queridos que folheiam seus sentidos.

Esta noite milhares baterão numa casa vazia.
Eu não.
Eu acordo entre poesias num dia de euforia.

Esta noite milhares perderão a esperança de beijar sua criança
Eu não.
Eu alugo um filme de comédia made in França.

Esta noite milhares se acorrentam numa cela imunda.
Eu não.
Eu me escondo entre muros numa preguiça funda.

Esta noite é a mesma noite.
Aqui também.
Um escurecer que me finca seu açoite.

Aline Cantia

de volta dos Pampas

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Era assim


Era assim, como sonho ou passe de mágica. A memória começou a despertar, e já não havia mais espaço pra a angústia.  As letras começaram a preencher o iceberg, e a memória de uma solidão, despertavam sentimentos da mais pura saudade. Por onde caminhar, pisar o chão com firmeza, não se deparar em prantos ao deglutir o oceano. Calamidades cruéis que riscam o chão da avareza jamais serão seu fim. É como ter o cérebro esvaziado por dois quilates de esquadro, que crispam a ferramenta de idéias, e no mesmo momento que pensamos compreender toda  a dimensão do incógnito, registramos esvaziamento do  híbrido corel de duas cabeças. Nada simplesmente fantástico ou inebriante apenas uma sensação de estupor, ou mesmo fadiga. E o sujeito segue delirante em seu caminho, sem saber onde quer chegar. Ao fim talvez. Não se pode comover a escrita, ou simplesmente dizer o que se quer dizer. No começo havia o verbo, trêmulo, e inconstante, que vegetava ao som da curva do vento de onde vem tudo. E simplesmente as letras não queria se formar em palavras. Preferiam brincar, e dançar ao som, que traziam melodias de esperança. A todo tempo tendo o pensamento tragado por problemas reais que te lançam a superfície de um todo vazio, e incoagulante subterfúgio improdutivo. E o verbo apenas verbo solitário e infeliz. Por que não entendi gramática, ou a linguagem se forma ao vento. Prefiro seguir algo ainda que tardiamente como um sopro de desespero, ou raiz de uma nova flor. Que venha com espinhos, ou transmute a em cactus. Dêem a ela artifícios de sobrevivência, que não a deixem perecer, leve –a para mais alta colina, verde e plena de beleza, a deixem lá para que ninguém note sua existência. E ainda preciso seguir, superar a barreira de mil caminhões falantes que atravessam a estrada a caminho do carnaval. Aqui deste mesmo canto, superar ainda o fluxo do pensamento, do verbo que não se expande. Hora de deixar o texto. Ou talvez não seja a hora de insistir, e continuar a jogar letras no iceberg. O sujeito seguia, ainda que sua árdua rotina. Todos os dias costumava tentar lembrar de esquecer, e rezar. Às vezes ranzinza, preso em seu labirinto aspiral .Lá fora o mundo urge.

AMPB

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Se o sol (a)chovesse

Voa avô a(avo)á
Lá onde o sol alumeia
Alumeia alumeia um luá
Um lua(rá) d’um lugá
Onde a lua incendeia
Incendeia o dia dia de á
De cá do lá de lá
Chego sem me despedí
Vo’membora sem aceno
Oh minha senhora
Não carece me vestí
Sou agora do sereno
Vô a voá pras bandas de (a)lá
O vento anoitece
É assim que acontece
No peito de um sujeito
Leva a vida do seu jeito
E é pra lá
É pras bandas de cá
Que vô a voá
Seguí com meu pandero
Viajá o mundo intero
No Pará pra descansá
Vô á voá avoá vá
Tem pista na brisa
Olha, vem vê
No rastro do cerrado
Não vô me perdê
Vô fugi pra longe
É logo bem ali
Casa atrás do monte
Lima, caju, pé de caqui
No inverno pulo pra cá
Primavera, outono,
Aí é outro ano
Outra vez volto pra  lá
Voa avô a(avo)á
Lá onde o sol alumeia
Alumeia alumeia um luá
Um lua(rá) d’um lugá

Aline Cantia

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Não A

Não há mais a poesia,
Não A
Mais
A
Poesia A
mais que
Nasce em demasia,
morta
Entrecortada por desilusões
a perturbar meu sono
Desleal como um falso,
Vigário padre, ou pulha
Marginal e insensível,
Como o cão da refração,
Guiado pela ilusão,
Pelo medo, de ser o que não é,
Mesmo que vá alem ,
Do que eu facilmente explique na ilusão dos seus olhos
Serão feixes perdidos de uma quase verdade,
Efêmera como  um poema
Onde não A,
Mesmo que de ponta cabeça,
subtraia – se de uma vogal ,
Que alinhavada, em dois tons
De semi colcheias
Recitam melodias
Das palavras indecifráveis
Como eu pra vc
Como vc pra mim,
Como o verbo liso e concreto
Das esquinas inexoráveis,
De curvas abruptas
Angulosas, que decerram pelas suas pálpebras
A tristeza de uma quase felicidade,

Escorregadia,    e pegajosa,

cega
a sentir,
o frio
estremecer na neve
e a derramar em avalanche,
o branco,
do sorrisso
dos dentes,
dos ouvido .
dos cabelos
poros
não narráveis em sintomas
da abrupta lei dos homens
a consumir,
vc
como a mim
não mais do que o rio que corre,

na introspecção
olho,
a fundo sua alma,
 a ser o que e não será por hoje que continuarei a descrever ininterruptamente por alguns dias correntes, todas as frestas que se apresentam ao meu espírito. Mesmo que talvez este não seja de hoje ou de ontem, ou de qualquer tempo que, não se possa contar, ou talvez de quando resolver pular,  sob o comando de  não exitar. Por não ter saída, saber o que fazer é a mesma coisa ao contrario, porem invertido da no mesmo. Como nada que pode dar em nada, ou jardins plantados que podem se transformar, ou em lastima de exatamente não poder contar, de um a dez em mais do que podemos ser todas as suas prediletas manias. De saber onde ela mora, e pq seus olhos não desmentem o que ouso sentir. C são todas as mesmas coisas do mundo que se organizam por suas semelhanças ou diferenças, ou talvez uma contra meta da historia, por mais que descorrra o ocorrido na própria direção do  que pode ser que esteja enviando sua mensagem cardíaca. Como o lençol que cobre seu corpo quando dorme seus sonhos, não podem esquentar a palma de meu pensamento. Obtuso e circunflexo. Por entre gumes de uma liberdade desvairada e claustro concedido, por estranha anomalia do pensar, agir,  e sentir fome.

AMPB

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Recado

Quero fazer minha gramática e ortografia,
Pois, a minha língua pátria é a poesia.
Assim lerão meus sentimentos
E quando desavisado Jumento
Incomodar-me com sua apatia,
Eu o direi sem acento:
-Esta crase Sr., Eu à sustento.

(CORUJA G.P.S)

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Explosão cultural?                                                                                                
       
Aumenta o número de poetas por km², as praças com                                                              
garrafas vazias, suas bitucas de cigarro nas manhãs das                                        
feiras e domingos testemunham o fenômeno.                                                            
Anaciel lacedômuno Antena bebe vinho sem álcool, fuma                                   
cigarro apagado e não escreve à caneta.                                                                     
Lúcia Calabouço Furtado gesticula e grita com seus braços                                 
tortos e sua voz irritante,  faz seu manifesto de alma e roupagem vermelha
escrito: coca-cola

(CORUJA – G.P.S)

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Por Cardes Amâncio
Desconstruir o emparedamento
Pois que sobra do homem – ruína.
Para edificar outros homens e mulheres
Que se sentem mais
Que sabem mais
Que se conhecem menos
Que nunca os viram
De perto.
De longe, da janela do carro à altura do morro. São pequenos.
Por uma ô pressão que supera a atmosférica
Faz a cabeça baixar, a mão calejar e a voz
Chamar dotô.
Homens e mulheres expandidos – egos, cifras,
De perto pequenos.
Esse poema cabe um pouco mas não acaba minha dor do mundo.
E me alenta a música que existe nas paredes, tirada de um cano
Por uma vítima do som.
Me condensa e afloro
No mais centro do turbilhão.

Bhz 29/03/05 16hs

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Jardim de Lírios – Por Cardes Amâncio

            Uma noite de domingo em abril. O céu de Belo Horizonte, acima das palmeiras da praça da Liberdade tem um tom de roxo que sempre me intriga. Caminhavam duas senhoras com trajes esportivos, se desviaram de um senhor que estava caído ou deitado no chão. “Nossa, olha que perigo para a gente tropeçar”, disse uma elas. Continuaram a caminhada circular, junto com mais uma multidão adestrada, rodando aquele estranho redemoinho urbano.
            Joaquim, o homem caído ou deitado, estava sem forças para falar. Não conhecia ninguém na metrópole, sobrava fome e faltava dinheiro. Tinha vindo do interior para fazer um exame e o motorista da ambulância que o trouxe não quis esperá-lo. Há dez dias que ele estava preso livremente nas ruas de Belo Horizonte. Ali na praça se deixou cair. Balbuciou sua história, típica dos retirantes. Soube que o colocariam num ônibus naquela mesma noite para sua cidade, depois de um lanche. Chorou alegre, recobrou suas forças e se reergueu. Vencia a dor do mundo.
            Há algo errado e se não fosse a câmera seriam outras armas. Faço arte com o absurdo, o absurdo que condenso e expilo. Uma arte que causa fissuras na redoma de um real fabricado e imposto pelos nossos colonizadores, uma realidade que não é a realidade do povo – a minha, a sua. Acredito como Picasso e Glauber Rocha que a arte revolucionária arranca as pessoas de um transe, atuando como catalisadora de processos libertários. Há algo errado quando os brasileiros negros saíram das senzalas e foram paras as favelas e de lá não saíram até hoje. Tem algo errado quando a Igreja Universal inaugura um templo colossal e junto com os shoppings, são uns dos imãs para espíritos perdidos. Errado quando o pão e o pano distribuídos aos escravos para garantir não mais do que sua sobrevivência se transforma em salário mínimo. Errado quando a poesia deixa o amor pra falar de revolução.
            A sangria é sustentada por um tripé político empresário comunicacional. Latifundiários políticos, políticos empresários, donos de emissoras da rede Globo políticos. O público em função do privado. Um esquema de concentração ad infinitum de renda e poder. Derivada dessa situação e ao mesmo tempo propiciadora da mesma é a apatia do povo. Uma cruzada um tanto quixotesca, de inimigos poderosos e quase invisíveis, cínicos despudorados. Falam até em risco de vida para quem ousa enfrentar. O embate é secular e sempre surgem interessados na reversão da situação. Salve Gandhi, Zapata, Chico Science, Drummond, Bolívar, Chomsky, Chico Mendes. Novas estratégias, o digital barateia a produção e com os incentivos do governo Lula na criação dos Pontos de Cultura e dos Pontos Digitais em médio prazo a produção de cultura e informação vai deixar de ser exclusividade de cinco ou seis famílias. A criação do canal latino americano público de televisão vai fazer circular continentalmente esta produção, contraponto da informação. Alento.
            Dentro de um processo transformador e de resistência se erige a produção avessal. A partir da negação da publicidade no sentido que lhe é dado pelo pensamento único – misto de ciências humanas e econômicas, originando uma técnica persuasiva afiada de dois gumes, que em seu fim torna mais ricos os ricos, faz Washington Olivetto parecer intelectual e encurta o caminho para a cadeia de pobres que vão roubar para consumir. Para existir. Negamos também o jornalismo parcial dos grandes veículos conservadores, reacionários e elitistas. O que interessa a nós é a comunicação dos quilombolas. A cultura dos morros. O jornalismo arte que surge, livre de leads idiotizadores, em assentamentos de sem terras, nos Calungas... Rumamos então, livres, para o desconhecido. E não tem mais volta.
            Cultivo no meio do olho do furacão um jardim. Meu filme que estréia em 2005, um documento experimento ficcional que trata da hiperfelicidade, do êxodo urbano, mercados, desrazão e do nascimento de uma poesia. Nada que uma pessoa que esteja preparada para a luta e consiga dar vazão aos seus fluxos criativos não possa fazer. Mas é um jardim raro, cultivado em tempos em que a anomia parece dominar as almas, deixando-as apáticas e sem viço.  É arte no sentido de ser único, pois deriva de uma alma que passou por um processo de revolução pessoal e está preparada para entrar contato com outras almas. É arte enquanto é sincera e espontânea, como um desenho de uma criança, que todo mundo já fez e pode fazer de novo se quiser, não faz tanto tempo assim que se desenhou pela última vez – como disse Paulo Lins. A arte como ponte que possibilita uma profunda interação entre dois seres. Pontes almáticas. “Jardim de Lírios” ignora todos os postulados de Sid Field, não cheira chorume hollywoodiano e é feito para pessoas e não para o mercado. Esse vai desprezá-lo e os jardins vão ter que ser vistos em locais alternativos, em praças públicas. Distribuição independente, canais comunitários, canais públicos, internet e outras trincheiras que a guerrilha de resistência for abrindo. Rápido, pois é próprio dos grandes capitalistas destas alternativas logo se apropriarem, pois o poder de infiltração do dinheiro é desmedido. Diante da realidade, incrível, de viver num país subdesenvolvido e colonizado, não há como desvencilhar minha arte, meu pensamento acadêmico e minha vida de um engajamento revolucionário e libertário. E do Jardim de Lírios sai um grito que muitos não tem a coragem de dar, outros poucos vão querer abafar e uma massa gostaria de dizer mas não sabe como. Absorto num processo sombrio de dominação o povo tem seu inconsciente bloqueado. Fabriquemos então umas chaves...

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Alguns Dias – Por Cardes Amâncio

Alguns daqueles dias que te pegam acordado fora do corpo, enquanto ainda na beira do penhasco andava. O cara caiu pra cima (voou?) até o alto, de onde viu toda ponta cabeça de mundo virado. De tantos que haviam tentado mudá-lo a massa secara. Talvez nem ele próprio se lembraria da verborragia da noite anterior quando vociferou doces palavras a amigos seus. E dela ainda se lembrava como se tivesse esquecido. Ambíguo como o beijo que lhe dera meia hora atrás, nem de partida nem de chegada. Nem de paixão nem de abandono. Beijo doce do querer estar perto longe sempre. Entendia? Não, confessou. Sentia? Com todos os seus poros, em cada milímetro quadrado de sua pele, poros de onde brotavam suor e toda inversão literária partia. Das mais chorumáticas às que pendiam dos ipês amarelos.

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