Jardim de Lírios - Cardes AmâncioVersão FinalCARACTERES sobre fundo negro: PrólogoEXT. ALTERNÂNCIA ENTRE RUAS DE UM BAIRRO NOBRE E UM SUBÚRBIO - DIAO Semeador circula pelas ruas limítrofes de uma favela e um bairro de mansões, guia uma carroça e está de megafone em punho.SEMEADOREsse filme não é uma super produção e não contém efeitos especiais. Este filme não se curva à ditadura do roteiro, nem se prostra diante das leis de mercado. Não foi feito para substituir a vida e nenhuma cena aqui contida é mais importante do que as que você protagoniza dia-a-dia. Este filme não é mal e não endossa a sociedade do espetáculo. Faz parte de um processo milenar de resistência à dominação. As imagens aqui contidas não são simulacros, não são sonhos que estão te empurrando cabeça adentro. Não é fantástico. Não é jornal nacional, nem novela. Não é Ratinho. Tampouco João Kleber. Seu Augustim disse que televisão causa catarata. Concordo... catarata nos olhos e na alma. Além de emagrecimento moral e intelectual. Não é armadilha pra te pegar distraído. Não é mão leve no seu bolso, não é tapa na sua cara. Muito menos Faustão ou Gugu. Não é comercial de banco ou de carro. Não é o Ford Ecosport que vai te trazer pra vida. Não vai te fazer feliz, pois isso só você sabe como. Passa longe das cifras. Não é uma representação do que deve ser vivido diretamente. INT. BAR DA FAVELA - DIACâmera deixa o Semeador por alguns instantes e mostra cartazes de cerveja com fotos de mulheres dentro de um bar do morro.SEMEADOR (V.O.)Em momento algum vai aparecer uma gostosa siliconada de biquíni pra te seduzir e depois te vender uma cerveja. Tampouco um modelo bombado de peito depilado ou qualquer outra imbecilidade do gênero. Propaganda de cerveja... Propaganda de cerveja... Propaganda de qualquer coisa. Dá pra ver toda a complexidade da podridão do capitalismo através de uma propaganda de cerveja.EXT. ALTERNÂNCIA ENTRE RUAS DE UM BAIRRO NOBRE E UM SUBÚRBIO - DIACâmera deixa o interior do bar e se apressa para alcançar o Semeador, que seguiu seu caminho.SEMEADORTalvez você não devesse ficar assistindo tantas coisas e fosse melhor que estivesse vivendo sua própria vida, fazendo seu próprio filme. Mas alguém quer lhes dizer algo.Ando aqui em busca das sensações reais. Coisas feitas de gente pra gente. Não de empresas para pessoas. Sentimento e não mercadoria. Fujo dos dias sem memória que tecem na impessoalidade da maioria das relações rasteiras que acontecem naquelas oito horas do dia. E a caneta que agora dança sobre o papel põe em traços legíveis sentimentos que não sucumbem às doses diárias de arsênico. Rotina... Quero argonautas nas minhas viagens. Quero ser onironauta em viagens alheias. SEMEADOR (Close up)Desejo tudo! que não se pode comprar uma vez que não estou à venda. E como o marujo urbano disse, a viagem não requer explicação, apenas passageiros.É preciso desformar o mundo e fazer o verbo pegar delírio. O nada não se compra e é o que é de melhor na vida. As pessoas, a bondade, a verdade, os lírios. Jardim de Lírios. Jardim de Lírios.Imagens em slow, detalhes da carroça e em plano seqüência crianças correndo, passando pela câmera, seguindo o Semeador.CARACTERES em animação: Jardim de LiriosCARACTERES em animação: Capítulo 1 – HiperfelicidadeEXT. FACHADA SHOPPING CENTER – NOITECARACTERES SOBRE IMAGEM: Um shopping qualquer. Uma certa igreja. Muitos espíritos atordoados. Um cão se aproxima da câmera e abana o rabo.O Dono do Shopping ou da Igreja saí pela porta principal do shopping e caminha pela fachada lateral que é ornada com imagens de clientes felizes.Dono do Shopping ou da Igreja (Olhando para a câmera - close) Os dias por aqui passam rápido e lentos ao mesmo tempo. Surgem velhas novidades todos os dias, mas a crença na beleza de um futuro não esmurece. Ainda que este seja o objetivo de mãos poderosas que reescrevem o passado, não nos encolheremos e não desistiremos. O vento sopra a favor e vamos reunindo os meios necessários para evitar que eles cheguem ao fim desejado: que é nos manter no limiar da máxima produtividade e do extermínio físico e moral. Sugam nosso sangue. Tostam os nossos neurônios. Nos fazem comprar tudo que não precisamos... Um ticket de ida sabe se lá pra onde. O inferno talvez.O Dono caminha por mais um banner gigante que fica dentro de uma vitrine e para.Dono do Shopping ou da Igreja (Olhando para a câmera – enquadramento de baixo para cima) Quem são eles? “Eles” é muito vago? Eles são poucos, eles são a minoria.Dono do Shopping ou da Igreja (Mais relaxado e irônico. Olhando para a câmera – plano americano)Mas, a par de toda disparidade, seguem se os dias. Vamos atentando contra a ideologia que nos é imposta pelos atores hegemônicos. Vamos ver o pôr do sol ali, da montanha. Escolho a trilha sonora das próximas horas da minha vida e beijo, esponjisticamente, minha linda.Conversei com Milton Santos e Nadia. Vamos juntos separados lutando para reverter as fábulas perversas. Enquanto isso a maioria de pele escura, vai abrindo caminho pelo largo pórtico que alguns poucos querem tornar estreito. Virtualmente estreito. Ilusão, criada por mentes malignas que querem a todo custo que tenhamos o que acham justo: uma morte severina. A mesma morte severina de sempre – agora globalizada, transmitida via satélite, em HDTV. Com mira laser e visão infra-vermelha. Infrared visors. Uma morte que se morre de velhice antes dos trinta. De emboscada antes dos vinte e de fome, um pouco por dia.Eu... vou fazendo mais um filme. É vital.O Dono pára em frente a um dos banners e o admira. Entre suas falas cortes para detalhes da propaganda, onde é mostrado um casal sentado numa mesa tomando vinho dentro do shopping.Dono do Shopping ou da Igreja Eles realmente são felizes. Puta merda, que casal feliz. O vinho e seu sorrisos nunca acabarão. Bebem o prazer de viver e vivem de beber o prazer Que casal feliz, que ambiente asséptico. Mercadorias de primeira. Melancias milimetricamente arrumadas. Desfoque no fundo. Lindo. Lindo.O Dono do shopping ou da igreja sai do quadro e retorna com um banquinho. Se posiciona em frente à imagem. Pessoas vão passando pela rua e se juntam, curiosas, ao Dono, admirando também a imagem do casal feliz.Um Pastor pregador de rua se aproxima do grupo que admira a imagem e nem percebe sua chegada. Dialoga com os curiosos e o Dono.PASTOR PREGADOR DE RUA Pagãos. Pagãos adoradores do bezerro de ouro. A cada esquina uma imagem. A cada esquina uma nova imagem. É a onipresença do simulacro.CURIOSO 1 Foi ele que chutou a santa na televisão. Foi ele que chutou a santa? A santa? Dono do Shopping ou da IgrejaA televisão da santa.CURIOSO 2Ele chutou o pai de santo? O pai de santo?Dono do Shopping ou da IgrejaO Daime. O Santo Daime.PASTOR PREGADOR DE RUAÉ a onipresença do simulacro.CURIOSO 3Esse cara é o dono do shopping!Dono do Shopping ou da IgrejaNão. Ele é o dono da igreja.PASTOR PREGADOR DE RUALogo vocês: viciados em placebos.CARACTERES sobre fundo negro: “Fumaça e Fogo! Odores nauseabundos. O dono do shopping ou da igreja sai de cena. Imagem de uma nota de cem reais queimando. Corta!” Os curiosos se dispersam. Ficam na cena apenas o Dono e um dos curiosos – uma garota.Dono do Shopping ou da IgrejaO controle remoto quebrou hoje de manhã.GAROTA Não entregaram o jornal hoje. Talvez tenham acabado com a assinatura.Dono do Shopping ou da IgrejaO jornal não veio? Hoje é um dia propício a felicidade.Vamos?!GAROTASerá?Dono do Shopping ou da Igreja Vamos. Isso de maneira alguma é a vida, sopraremos nevoeiros de ilusões e nos encontraremos dentro de nós mesmos.CARACTERES em animação: Capítulo 2 – ExodusEXT. RUA / POSTES DE ALTA TENSÃO – DIACâmera aos poucos vai revelando, zoom out, pares de tênis pendurados nos fios de alta tensão, que contrastam com o azul do céu. CARACTERES sobre imagem / estilo legenda:Pergunto pra você (eu já fiz esta pergunta antes) o que queria realmentea primeira pessoa que jogou um par de tênis com os cadarços amarradosnos fios que ficam no alto da rua?Disse para quem estava comigo que talvez quem jogou estivessecansado de andar, já tivesse caminhado muito na cidade,talvez quisesse colocar os pés descalços no chão e ir para o interior dali mesmo.E limpar uma vez este chão muito pisado com a sola dos pés.Acredito que mendigos têm esta dignidade, mas não têm tênis. Valton M. AmâncioEXT. RUA – DIAO autor do texto da cena anterior analisa os oito pares de tênis pendurados nos fios. Plano aberto com Valton em primeiro plano e os tênis ao fundo. Atravessa a rua algumas vezes.VALTON É, os tênis de novo. Todo lugar que a gente vai nessa cidade parece que tem um pouco. Marca... sem marca... Tudo bem. Alguém já deve ter pegado também pra aproveitar isso aí. A gente ta falando mesmo é desses tênis... isso ai na verdade decora a cidade. Acho que até vídeo game já deve ter esses tênis assim. Acho que eu vi também num filme um neguinho jogando. Alguém já deve ter pegado pra aproveitar isso aí. Ali são oito pares. Oito pares. Bom hoje eu estou de chinelo, de roupa branca. E... Se eu tirar o chinelo um pouco, é fácil pra mim ficar descalço aqui. E pegar um tênis daqueles ali também eu já pensei nisso. Ah... olha aqui galera, da pra pisar descalço no chão da rua de vez em quando. É só olhar onde pisa.Takes novos dos tênis nos fios, sua imagem refletida em uma poça d’água junto ao meio fio. Não há personagem algum em quadro. Apenas pessoas que eventualmente cruzarem a frente das lentes. Imagens de esquinas. Ambientação para o texto em off a seguir que explica poeticamente a origem dos oito pares de tênis. NARRADOR Eles foram chegando num repente. Cada um vinha de um lado e parecia uma cena de um filme. Mas não. Nada tinha sido combinado ou tampouco ensaiado. Se reuniram ali naquela esquina. Entre velhos, mulheres, homens e crianças faziam oito. Olhos cúmplices se atravessaram. Não tinha mais volta, aliás NUNCA houve volta. Tiraram os sapatos e arremessaram. Te confesso que foi lindo. Van Gohg. Toda aquela simplicidade e alta tensão. De pés descalços e mãos dadas seguiram leves. Resistentes a tudo, menos a certa maldade secular, responderam ao chamado da terra como dignos filhos desta. A mim restou a cena gravada na memória e um lágrima, que se misturou rapidamente à água que caia do céu.CARACTERES em animação: Capítulo 3 – Ladrões de PensamentoEXT. PARQUE DE DIVERSÕES – RODA GIGANTE - NOITEMulher passeando na roda gigante, olhar contemplativo e tranqüila. Entre uma volta e outra recita o poema. De vez em quando inserções rápidas da mulher dirigido um carro, indo para algum lugar. A medida que a cena se passa o ritmo da trilha sonora se intensifica, indicando que algo pode acontecer a qualquer momento.MULHERÀs vezes o pensamento surge em forma de poesia. E gira...Gira rodas letras em busca de palavras perfeitas, em meio a tantas cores.Pensa do fundo de algum lugar escondido e precioso que por bem querer é a alma.Alma e poesia andam juntas. Metade das minhas poesias fala de alma. Sozinhas, gêmeas, boas, mahatmas, rotas ou insossas. Metade da minha alma é poesia.De amor, de paixão, de sonhos ou de revolução. Pensa o pensamento leve, até que a poesia sublime. Por falta de papel, câmera, caneta, ouvido, fita, bateria, ouvido ou gravador. Ou simplesmente some, porque é uma poesia de um pensamento. Livre pra nascer e partir. Sem amarras. Sem o dom do infinito que lhe imprimiria um papel onde ela não foi escrita. Mas teve a liberdade de nascer e crescer sem ser assassinada por uma placa de rua.EXT. RUA – NOITEMulher desce do carro e se aproxima de um ladrão de pensamento – o outdoor. Traz consigo balões cheios de tinta e enquanto fala, arremessa-os no outdoor.MULHERCom que fotos publicitárias esdrúxulas, mentirosas, maquiagens, mocapes, modelos, fundos infinitos... Ladrões de pensamentos. Com que direito param o meu pensar que andava risonho no meio da rua. Com moeda podre me compram os sonhos. Com facas enferrujadas e sem corte assassinam idéias. O ser antes do consumir. A alma antes do produto. Penso logo existo porra. Penso logo existo. Perniciosos, calculistas, capitalistas, bolso-sugas. O painel recebe várias bombas de cores e a Mulher fica satisfeita.MULHERAgora sim... painel inofensivo. Trará cores a pensamentos nublados pelas arapucas midiáticas. CARACTERES sobre fundo negro: Epílogo MONTAGEM alterna as três seqüências a seguir. Em off narrador recita “Cidade Prevista”, de Carlos Drummond de AndradeNARRADORGuardei-me para a epopéiaque jamais escreverei.Poetas de Minas Geraise bardos do Alto-Araguaia,vagos cantores tupis,recolhei meu pobre acervo,alongai meu sentimento.O que eu escrevi não conta.O que desejei é tudo.Retomai minhas palavras,meus bens, minha inquietação,fazei o canto ardoroso,cheio de antigo mistériomas límpido e resplendente.Cantai esse verso puro,que se ouvirá no Amazonas,na choça do sertanejoe no subúrbio carioca,no mato, na vila X,no colégio, na oficina,território de homens livresque será nosso paíse será pátria de todos.Irmãos, cantai esse mundoque não verei, mas viráum dia, dentro em mil anos,talvez mais... não tenho pressa.Um mundo enfim ordenado,uma pátria sem fronteiras,sem leis e regulamentos,uma terra sem bandeiras,sem igrejas nem quartéis,sem dor, sem febre, sem ouro,um jeito só de viver,mas nesse jeito a variedade,a multiplicidade todaque há dentro de cada um.Uma cidade sem portas,de casas sem armadilha,um país de riso e glóriacomo nunca houve nenhum.Este país não é meunem vosso ainda, poetas.Mas ele será um diao país de todo homem.EXT. CALÇADA – NOITELucas, um garoto de rua, tem uma flor em suas mãos e a planta perto de uma árvore do passeio. LUCASEu consertei a flor e depois ela cresceu.Sorri para a câmera após ter plantado sua flor.EXT. RUA – DIAHomem sai de dentro de um bueiro, desce correndo por uma passarela de pedestres. Segue com seus movimentos à la Dziga Vertov, encontra um toco de árvore pelo caminho, faz uma reverência à árvore que existiu ali um dia. Segue até uma feira, onde estica uma lona no chão, tira suas roupas e as coloca a venda.EXT. CALÇADA – DIAUma modelo se aproxima de uma privada que esta no meio da calçada, ao lado de uma pilha de jornais e revistas. Faz uso do toalhete e se serve dos jornais e revistas como papel higiênico.CRÉDITOS FINAIS