Roteiro Sobrevôo Autor Léo Kildare Seq 1: Passos no chão (numa rua larga qualquer. Ext/noite). Black-out. Música à la Bjork toca muito alto. Esse som ensurdecedor é a única coisa que o espectador tem. Muito alto. Ouvem-se passos. Alguém que anda no asfalto com salto alto. Uma mulher. Só se vê o breu. Ouve-se música e passos. Os sons se misturam demais. Caos sonoro e ainda o escuro. Aos poucos a música vai ficando mais serena, mais tranqüila e os passos já podem ser ouvidos com mais clareza. Gradativamente surge na tela um vestígio de alguém. Do breu emergem traços vermelhos que logo são revelados como sapatos de salto alto que caminham sempre para frente, como se fossem invadir o cinema a qualquer momento. Música vai silenciando e os passos dominam tudo. Vê-se que são pernas de mulher e que cambaleiam, não como se esta mulher estivesse bêbada, mas como se tivesse acabado de levar um grande baque, como se tivesse, pela primeira vez, sido verdadeiramente tocada pelo destino cruel e destruidor. Seq 2: Apresentação do problema (voz em off da Mulher) Eu não estava preparada para o que se passou: pisei num pássaro morto no meio de um cruzamento. Me dilacerei. Um grito ainda mais ensurdecedor que o que vem da música. Corte para uma seqüência de animação em que há um pássaro morto no meio de um cruzamento em uma grande metrópole. Ele é atropelado milhares de vezes por todos os milhares de carros que passam incessantemente. Seq 3: Fusão dos personagens Narrador(em off): A pressa era tanta que ela fingiu não ter visto. Mas viu. Sentiu. Relembrou a dor de ser destroçada. Música sempre ao fundo. Flash da mulher de salto alto correndo pela rua, abordando qualquer um que passa, transtornada. Mulher (para um senhor de sobretudo): Andei rápido, para tentar esquecer. (para um homem caído): Quem terá feito mal àquela criatura tão singela e indefesa? (para trás, como se falasse a alguém): As patinhas estiradas, duras como as estacas que abrem caminho à força, nos invadindo sem um pingo de piedade.(grita) Buraco qualquer? (a um carro que quase a atropela): Tanta pena. Cobriam tudo em volta. O corpo esmagado. Muito peso em cima. Sufocava. Seq 4: Fusão perfeita (meio da rua. Ext/dia). Cada frase é dita por alguém diferente. Plano do alto mostra uma mulher atropelada estirada no chão. Muitas pessoas em volta. Ator 1: Acho que foi atropelamento. Ator 2: Dizem que ela estava distraída, olhando obsessivamente um corpo caído. Ator 3: Tanta pena. Seq 4: O tamanho do problema (na rua do começo. Ext/noite). Não se vê o rosto desta mulher. Só seus pés. Passos cada vez mais rápidos, quase correndo. Mulher Pisei nele sem querer. Terrível matar mais que se pode suportar. Eu estava distraída. Foi só. E de repente... as penas voaram longe demais para serem vistas. Eu apenas pude sentir o cheiro delas. E a imagem pulsando forte. Acho que era andorinha. Eu Beija-flor. . Ele tem direito a um enterro digno, com cortejo e tudo. É tão bonito. Sempre sonhei com isso. Seq 5: O triste fim (local do atropelamento. Ext/dia). Pedestre qualquer: Talvez descarga elétrica dos fios da iluminação pública. Uma senhora: Ficará caída, até ser devorada pelos monstros que habitam a escuridão do mundo? É tão bonita. Que descanse em paz. Seq final: Nuvem de algodão (Rua. Ext/noite). Mulher continua andando com dezenas de vozes ecoando. Começa a correr, tropeça e se levanta depressa, como se quisesse chegar a algum lugar. Enfim chega num grande cruzamento, o mesmo em que ela pisou no pássaro morto, mas ele não está mais lá. Há penas por todos os lados e uma mancha de sangue no chão. Mulher se abaixa e passa a mão no sangue. É o único momento em que se vê a mulher por completo. Mulher: Onde foi que esconderam você? Nunca lhe deram atenção! Vai ter cortejo? Sempre sonhei com isso. Aquela nuvem com formato do urso de pelúcia que ganhei da minha avó. Lembra? Música toca cada vez mais alto enquanto a mulher corre em todas as direções. As falas dela e dos outros ecoam. Um carro atropela a mulher, mas só ouvimos. Voam penas vermelhas. Muitas penas. Cada vez mais alto. Breu.