De Clarice a Von Trier: os acasos de uma criação

 

“Sobrevoo” nasceu aos poucos, com pouca coisa, sem pretensões, com muita pena de histórias de bichos. Inspirado nas baratas e sapos de Clarice, escrevi um conto homônimo há uns três anos, após me deparar pela enésima vez com um pássaro morto no meio dos meus caminhos. Sentei no meio da rua, num passeio de um posto de gasolina às sete da manhã e de frente pra ele, caído, espatifado, dilacerado, escrevi. O rascunho de uma página virou um não rascunho de uma página digitada e revisada. Arquivada por uns dias, maturando, e logo mandada para meus amigos e leitores próximos, para que eu pudesse ter um retorno do que aquelas palavras causavam. Guardei aquela história por um bom tempo. Num certo dia, à noite, fui surpreendido por Lars von Trier e seu Dançando no Escuro. Era muito tarde, ainda assim não pude dormir. O som ensurdecedor de Björk era incômodo demais. Fui para o computador munido de duas coisas: muita tristeza e algumas técnicas de construção de roteiro adquiridas em oficinas, que eu, ator, já tinha feito por aí. Após pesquisar alguma música do vasto arsenal de Björk, que me inspirasse de forma máxima e contínua, me deparei com Joga, música sobre um estado de emergência, exatamente o estado em que eu me encontrava quando escrevi o conto, o mesmo que eu estava naquela hora da noite. Ouvi a música repetidas vezes, sem parar, até colocar o último ponto final no roteiro, até apagar as luzes de um flash num dia de uma mulher, na recordação de uma vida, de tudo em apenas cinco páginas. Com o roteiro na mão, ofereci ao Cardes a direção, propus uma parceria, ganhamos uma verba e eu já de viagem marcada para intercâmbio na Alemanha, desapareci. Tudo ao mesmo tempo, meio sem tempo para digerir, pensar. Enquanto estive fora, um ano para ser exato, o conto foi publicado no Estado de Minas, o filme foi rodado, e depois que eu cheguei já estava na pós-produção. Muita curiosidade. Muita inquietação. 10 de Dezembro. Dois anos depois do início do projeto. Foi a data em que estive diante de “Sobrevoo” outra vez. Difícil ainda falar do filme. Já vi uma dezena de vezes sozinho no quarto, no mais absoluto silêncio, atento. Obviamente que as imagens finais não correspondem aos meus delírios, iniciados há tanto tempo, naquela manhã, tão cedo. Vivi na pele a sensação que roteiristas vivem ao terem seus filmes rodados enquanto eles já se envolvem em outro trabalho, ou simplesmente não podem acompanhar de perto o outro nascimento da criança. Mas estou feliz por ver minha criação solitária ser tocada por outras mãos, outros pensamentos e ensejos. Por que tinha que ser tudo como eu pensara? Impossível, eu sei. Mais importante é que a história agora alça vôos maiores dos que eu imaginei pra ela. E ruma em outras direções. Coincidence makes sense, é o que aprendi depois de tudo isso, depois de cinco minutos fora de mim.

 

Léo Kildare

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