Sobre Acaso e Vôos

Me chega ao acaso um email com um roteiro. Por acaso não exatamente, pois tudo é uma grande teia que se tece ao poucos, diariamente e às vezes, sem que tenhamos previsão do que estar por vir. Destrincho parte da teia: Vinícius me manda um email divulgando que a ong Contato recebia proposta de oficinas de audiovisual, em 2006. Mandei... Um ano depois me contrataram para dar o curso. No material de divulgação constava minha oficina de videopoesia e um dos livretos foi parar na mão do Léo Kildare, que gostou da proposta e intuiu que eu poderia ser o diretor da sua história e me mandou o email com o roteiro. Li. Achei interessante a possibilidade de filmar pela primeira vez algo que não tivesse saído da minha caixola. Simbora. Mandamos para a lei municipal de incentivo à cultura e fomos aprovados. O resultado saiu no início de 2008. Iniciei a pré-produção. Começava também uma crise. Sempre dirijo roteiros que eu escrevi. Curto o processo do início ao fim. Ser encontrado pela idéia, namorá-la, fazer um argumento, desdobrar no roteiro, montar a equipe, filmar, editar e botar o guri pra rodar pelo mundo. “Sobrevoo” pulou em mim uma parte do processo, quando eu termino o roteiro o filme já está pronto na minha cabeça. Tinha que mergulhar no roteiro e fazer as imagens começarem a rodar mentalmente. A água estava gelada... Fiquei sabendo que dois diretores conhecidos aqui de Belo Horizonte haviam declinado do convite, dizendo que o roteiro era muito pessoal e que o ideal seria o próprio Léo dirigir. O projeto aprovado, a grana pra filmar estava pra sair e eu na encruzilhada. Gostava do roteiro mas ainda não havia tido o click vital, a faísca, o start para rodá-lo. Algo parecido com que os outros diretores tinham sentido e que os fizera não filmar o “Sobrevoo” se abatia sobre mim. Resolvi fazer outro roteiro e filmar outro filme. Manteria alguns elementos do roteiro do Léo, mas seria totalmente diferente. Comecei a escrever, as linhas foram virando páginas, uma fusão com um outro argumento que estava na minha fila de projetos futuros... Horas e horas de dias diferentes curtindo a sensação de criar, me deleitando com as cenas que um dia vão afagar sua retina. Me sentia bem, gravaria em breve e até já tinha escolhido algumas locações. Depois de virtuosas esquinas dobradas a encruzilhada novamente! Como já estava tudo combinado com o Léo, tinha que avisá-lo que não faria mais o “Sobrevoo”, mas que o novo roteiro seria acrescido de elementos chaves do antigo. Cheirava a prêmio de consolação... Mas não dava e Dani me ajudou a voltar pra Terra. Não dava pra deixar o Léo sem assistir seu próprio filme. Deve ser uma onda muito boa ter alguém pra dirigir seu roteiro. É uma espécie de permissão pra pessoa sonhar com sua cabeça, gravar num DVD e você assistir depois. Resolvi sonhar o “Sobrevoo”. Fiquei feliz, pois tinha um novo roteiro praticamente pronto. A água ficou boa e mergulhei de ponta. Tava muito bem escrito, daria um filme massa, voltei pro meu desafio de convite aceito. Mudei um par de frases que não gostava. Comecei a formar a equipe, coletivizando o sonho do Léo com as pessoas que me ajudariam a torná-lo projetável um dia. E que agora é real.

Cardes Amâncio

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