QUAIS SERIAM OS GRANDES FILMES DA HISTÓRIA?

SE VIVA, MINHA TIA CONTINUARIA DIZENDO QUE ESSE MENINO “ NUM” PARA DE DAR PALPITES: É QUE EU TENHO A MANIA DE DAR PALPITES EM TUDO....

Sérgio Braga

*publicado também na revista Magiscultura número 3

Em 1995, por ocasião do centenário da invenção do cinema, da célebre primeira exibição dos filmes dos Irmãos Lumière, em Paris, pretenciosamente, como eu tinha uma coluna semanal publicada em alguns jornais, o principal deles o DIARIO DO COMÉRCIO DE BELO HORIZONTE e ainda o CATAGUASES, resolvi dar os meus palpites e selecionar os maiores filmes da história do cinema. Para justificar o que fazia, eu falei do meu envolvimento com o mundo do cinema, um curso da Universidade Federal de Juiz de Fora que fiz, organizado pelo Décio Lopes, figura mítica da “Manchester Mineira” e ainda a coluna que mantive, por dois anos, em alguns jornais da rede dos Diários Associados, ao tempo em que, trabalhando como repórter da extinta Agência Meridional, ainda estudava Direito no Rio de Janeiro. Na coluna, eu falava, ora de música, ora de cinema.

E cheguei a uma lista de 61 filmes. De lá para cá, com a explosão das edições no formato DVD, e a multiplicação dos lançamentos, contemplando verdadeiras raridades, antes só disponíveis em algumas poucas cinematecas pelo mundo, assisti a muitos filmes dos quais apenas ouvira falar. E senti que estaria na hora de atualizar minha relação.

Mas antes de adicionar os novos títulos importantes, é preciso que se diga que o cinema, muito mais do que apenas entretenimento ou diversão, para mim, é como se fosse o fornecimento de uma linguagem diferenciada aos pensadores que, do século XX para cá, passaram a se exprimir através de seus filmes e não mais apenas por tratados ou livros. E como a linguagem audiovisual ganhou um avanço tecnológico fantástico, as novas gerações têm muito mais referências para citar e nas quais apoiar suas posições no mundo a partir de obras cinematográficas do que mesmo em grandes clássicos da literatura. Muitos até insistem que o livro tem seus dias contados.

É por isso que estranho que diversas listas que deveriam ser mais criteriosas, abarquem obras duvidosas e que, de significado maior, possuem apenas a boa diversão que proporcionaram em dado momento. Aliás, a regra - na maioria das listas que andei pesquisando -, é baseada num critério de mercado, de filmes que fizeram sucesso valendo como principal qualidade dos mesmos, o êxito tanto de público quanto financeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comecemos por analisar 501 FILMES QUE MERECEM SER VISTOS, editada pela Larouse originalmente em Londres, em 2004 e no Brasil em 2009 (1). A obra, que não tem um autor definido, divide os filmes selecionados entre diversas categorias, o que me parece, de antemão, algo duvidoso. Afinal de contas, necessariamente, entre os grandes filmes do cinema, não vejo por que colocar filmes de ROMANCE, ou de GUERRA ou qualquer outro tipo. O que interessa é que o filme seja realmente importante e tenha aberto, com sua edição, novas perspectivas para o pensamento e para o cinema.

Da lista deste trabalho, definitivamente, OS DEZ MANDAMENTOS; VIKINGS – OS CONQUISTADORES; ZULU; O DESTINO DO POSEIDON; OPERAÇÃO DRAGÃO; INFERNO NA TORRE; OS ELEITOS; ONDE O FUTURO COMEÇA; GREYSTOKE – A LENDA DE TARZAN; O REI DAS SELVAS; A MISSÃO; TOP GUN - ASES INDOMÁVEIS; DURO DE MATAR; VELOCIDADE MÁXIMA; TRUE LIES; CORAÇÃO VALENTE; O TIGRE E O DRAGÃO; O SENHHOR DOS ANÉIS – A SOCIEDADE DO ANEL; MESTRE DOS MARES – O LADO MAIS DISTANTE DO MUNDO; PIRATAS DO CARIBE – A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA; TRÓIA; A SEDUÇÃO DO MARROCOS; EU, ELA E OUTRA; UMA LOIRA POR UM MILHÃO; CLUBE DOS CAFAJESTES; APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU; O CLUBE DOS CINCO; CURTINDO A VIDA ADOIDADO; CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ; AUSTIN POWERS – UM DETETIVE NADA DISCRETO; QUEM VAI FICAR COM MARY?; ROCKY – UM LUTADOR; UM SONHO DE LIBERDADE; APOLO 13; TRAFFIC – NINGUÉM SAI LIMPO; DESAFIO DO ALÉM; O EXORCISTA; CARRIE – A ESTRANHA; HALLOWEEN; O DESPERTAR DOS MORTOS; A HORA DO PESADELO; O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS; ENTRE A LOIRA E A MORENA; O REI E EU; AMOR A TODA VELOCIDADE; THE ROCK HORROR PICTURES SHOW; GREASE -NO TEMPO DA BRILHANTINA; A PEQUENA LOJA DOS HORRORES; DIRTING DANCES – RITMO QUENTE; TARDE DEMAIS PARA ESQUECER; CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE; UM HOMEM, UMA MULHER; LOVE STORY – UMA HISTÓRIA DE AMOR; UMA LINDA MULHER; GHOST, DO OUTRO LADO DA VIDA; ENQUANTO VOCÊ DORMIA; TITANIC; WESTWORLD – ONDE NINGUÉM TEM ALMA; SUPER HOMEM – O FILME; GHOSWT BUSTER – OS CAÇA-FANTASMAS; O EXTERMINADOR DO FUTURO; A MOSCA; ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO; BATMAN; MISTÉRIOS E PAIXÕES; INDEPENDENCE DAY; HOMEM ARANHA; OS INTOCÁVEIS; INSTINTO SELVAGEM; AMNÉSIA; OS CANHÕES DE NAVARONE; OS DOZE CONDENADOS; INFERNO NO PACÍFICO; TRÊS HOMENS EM CONFLITO; BRAVURA INDÔMITA; UMA LONGA JORNADA e OS JOVENS PISTOLEIROS, se podem ser considerados grandes sucessos comerciais e bons filmes como passatempo, nada acrescentaram à sétima arte.

É bem verdade que este livro, segundo seus autores, foi pensado para os que chegam agora diante de toda a obra realizada pelo cinema e se perguntam o que devem ver para terem uma boa visão sobre esta arte. Mas, com efeito, nenhum filme de ANTONIONI?! E VISCONTI, o autor de obras fantásticas que são O LEOPARDO e ROCCO E SEUS IRMAÕS, para ficarmos apenas em duas citações?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, livros como 501 FILMES QUE MERECEM SER VISTOS, da Larrouse, não se justificam e, portanto, não merecem maiores atenções. Pelo contrário, a salada que recomendam pode ser por demais indigesta. Não pode ser coisa séria.

SOBRE “A REGRA DO JOGO”, DE RENOIR

Quando exibimos A REGRA DO JOGO, indiscutivelmente uma das obras-primas do francês Jean RENOIR, tentei dar uma ideia do que era o atropelo e os absurdos que faziam em nome do cinema, com a elaboração de lista sem nenhum significado. Veja-se o caso da lista do American Institute Film Culture, que achei na Internet, divulgada em 1998.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre essa lista, no trabalho que fiz para o CINECLUBE do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, acabei acentuando que...

“E aqui o absurdo é tamanho em termos de visão mais ampla sobre a história do cinema, que os 19 primeiros títulos citados são todos de produções norteamericanas ou inglesas. Realmente, para os norteamericanos, o mundo só existe para eles. O primeiro estrangeiro da lista é o tcheco Milos Formam, num dos filmes que realizou nos EUA, que é o realmente importante UM ESTRANHO NO NINHO.

É o mesmo Milos Formam que quebra uma nova sequência de chauvinismo norteamericano, lá pelo 53º lugar, com AMADEUS, outro de seus grandes filmes.

Francamente, uma lista que coloca TEMPOS MODERNOS na modesta 81ª posição, tudo em detrimento de CASABLANCA, em 2º lugar, e coisas como TOOTSIE, que é apenas uma boa piada, em 62º lugar, não é uma lista que mereça maiores comentários ou mesmo respeito. Não é coisa séria. Por isso não vamos mais perder tempo com ela.

Bem mais preocupada em realmente avaliar o conjunto do cinema ao longo de sua história, a seleção do British Film Institute, também divulgada em 1998, merece respeito. Nela vamos ver títulos de autores como os franceses Jacques Tourneur, Abel Gance, Dreyer, Jean Renoir, Jean Vigo, Françoise Truffaut e Godard, bem como do sueco Victor Sjöström.

Ali temos ainda filmes dos alemães Robert Wiene, Stroheim, Murnau, Friz Lang, Max Ophuls, bem como dos russos Dziga Vertov, Eisenstein e Tarkovski. Também aparece o indispensável inglês Charles Chaplin e vários norteamericanos como Capra, Hawks, Leo McCarey, John Ford, Orson Welles, John Huston, Vicent Minelle, Griffith, Gene Kelly, Cassavetes, Coppola, Scorsese e Spielberg.

A reluzente presença do espanhol Bunuel atesta a seriedade com que se realizou essa avaliação, que destaca também, entre os italianos, Roberto Rosselini, Fellini, Visconti, Bertolucci e Elmano Olmi. O japonês Akira Kurosawa também teve reconhecida sua importância ao lado dos poloneses Andrzej Wajda e Polanski e do grego Theo Angelopoulos.

Um destaque especialíssimo deve ser feito ao brasileiro incluído em tão seleta companhia, como destaque do ano de 1964, que é Nelson Pereira dos Santos, e seu VIDAS SECAS”. (2)

OUTRO LIVRO DESCONCERTANTE

Quando estive na Argentina, achei numa belíssima livraria da capital, um livro bem mais interessante sobre cinema; EL CINE – HISTORIA DEL CINE. TECNICAS Y PROCESSOS. ACTORES E DIRECTORES. DICIONARIO DE TÉRMINOS. 100 GRANDES PELÍCULAS. Por coincidência, este também foi editado pela Larouse, cabendo a Núrya Lucena Cayuela a direção editorial e a Pablo Mérida de San Román a redação dos textos. A obra saiu em Barcelona, em 2003. (3)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui a relação é bem mais comportada, sem a atenção apenas para as videolocadoras e seus filmes apelativos. E não se pretende definir quais seriam as 100 obras mais importantes do cinema. O que se busca seria indicar alguns filmes importantes que não podem ser esquecidos ou que precisam ser lembrados sempre.

A lista se abre com o que seria o maior filme de todos os tempos, O ENCOURAÇADO POTEMKIN. Seguem-se alguns títulos realmente indispensáveis tais como APOCALIPSE NOW; BLADE RUNNER; BONNIE Y CLYDE; CIDADÃO KANE; OS IMCOMPREENDIDOS; UM CORPO QUE CAI; LA DOCE VIDA; 2001, UMA ODISSÉIA DO ESPAÇO; A GRANDE ILUSÃO; METRÓPOLIS; A LARANJA MECÂNICA; A PAIXÃO DE JOANA D’ARC; ROMA, CIDADE ABERTA; O ÚLTIMO TANGO EM PARIS; VIRIDIANA e Z.

 

 

 

 

 

 

 

 

Como se vê, a maioria das indicações são realmente de grandes filmes. Contudo, há escorregões que não podem ser aceitos, mesmo que se respeite a paixão de um ou outro crítico ou historiador. A presença de DANÇANDO COM OS LOBOS; CLEÓPATRA; O EXORCISTA; O EXPRESSO DA MEIA NOITE; GRASE – NOS TEMPOS DA BRILHANTINA; MATRIX; ROCKY, O LUTADOR; O HOMEM ARANHA; TITANIC; TOY STORY; TUBARÃO e A VIDA É BELA, são extremamente duvidosas e, ao nosso ver, inviabiliza que se aceite francamente todo esse trabalho. Mais uma vez, há visivelmente uma preocupação com sucessos de público e não com o cinema que, muitas vezes não tem grande público mas é inovador, descortinando novas ideias e caminhos dentro da sétima arte.

OUTRA OBRA POLÊMICA

Ronald Bergan é o autor de outro livro algo polêmico, CINEMA – HISTÓRIA – GÊNERO – CINEMA MUNDIAL- DIRETORES DE A-Z – 100 MELHORES FILMES. A obra saiu pela Zahar em 2007 (4). E aqui já existe a nítida preocupação em se listar quais seriam os grandes filmes da história, os cem principais. E as extravagâncias são bem menores, como NOSSO BARCO, NOSSA ALMA; UM PAÍS DE ANEDOTA; TUDO QUE O CÉU PERMITE; THE CHELSEA GIRLS; NASHVILLE; VELUDO AZUL; UMA JANELA PARA O AMOR; QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL e ainda TOY STORY; TRAFFIC e BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Temos de reconhecer, contudo, que Ronald Bergan pelo menos teve a coragem de reconhecer o cinema não como um fenômeno só de Holywood, dando destaque para filmes importantíssimos, como os alemães O GABINETE DO DR. CALIGARI; O CASAMENTO DE MARIAM BRAUN; NOSFERATU, O VAMPIRO; METRÓPOLIS; OLIMPIA; AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES; os russos como O ENCOURAÇADO POTEMKIM e ANDREY RUBLEV; os franceses como NAPOLEÃO; O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC; UM CÃO ANDALUZ; O ATALANTE; A REGRA DO JOGO; O BOULEVARD DO CRIME; ORFEU; OS INCOMPREENDIDOS; ACOSSADO e O ANO PASSADO EM MARIENBAD; os italianos como OBSESSÃO; LADRÃO DE BICICLETAS; A DOCE VIDA; A AVENTURA; A BATALHA DE ARGEL; O INCONFORMISTA e CINEMA PARADISO; os japoneses como ROSHOMON e ERA UMA VEZ EM TÓQUIO; o indiano A CANÇÃO DA ESTRADA; o sueco O SETIMO SELO; o polonês CINZAS E DIAMANTES; os chineses LANTERNAS VERMELHAS e AMOR À FLOR DA PELE; o iraniano ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS e ainda o brasileiro CIDADE DE DEUS.

BEM MAIS AMBICIOSO...

Bem mais ambicioso do que os livros que examinei rapidamente acima, é o de Roger Ebert, “A MAGIA DO CINEMA – Os 100 melhores filmes de todos os tempos analisados pelo crítico de cinema que se anuncia como o único ganhador do prêmio Pulitzser”, que saiu pela Ediouro em 2004 (5). O autor não esconde sua preferência por alguns filmes bem duvidosos de terem direito de figurar nesta lista. É bem verdade que a maioria dos trabalhos comentados estão realmente entre o que há de melhor na história do cinema.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas, francamente, BASQUETE BLUES; CORPOS ARDENTES; CURVA DO DESTINO; JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR; LADRÃO DE ALCOVA; NASHIVILLE; PALAVRAS AO VENTO; PORTAIS DO CÉU; REDE DE INTRIGAS; RITMO LOUCO; O SAMURAI; O SILÊNCIO DOS INOCENTES e A TORTURA DO MEDO, este último, um filme de péssima qualidade, tudo isso empana o brilho de sua relação.

Reconheça-se que fazer uma lista com a pretensão de ter a seleção definitiva dos maiores filmes de todos os tempos é uma tarefa quase que impossível. Eu por exemplo, quando assisti a O MENSAGEIRO DO DIABO, que todos os livros citados até aqui destacam como uma grande obra, tive uma enorme decepção, pois achei o filme muito fraco e com vários pontos discutíveis, a começar pela incensada atuação de Robert Mitchun, que me pareceu forçada e até ridícula em um ou outro momento.

PILARES

Jose Lino Grunewald, crítico que escrevia no CORREIO DA MANHÃ, ao tempo que este jornal foi o mais importante de todo Brasil, antes de ser massacrado pelo Golpe de 1964, pois era um incômodo ao abrigar tantos pensadores independentes, a começar por Otto Maria Carpeaux e Carlos Heitor Cony, Grunewald, em seu livro UM FILME É UM FILME – O Cinema de Vanguarda de 60, que foi organizado postumamente por Ruy Castro, fez um trabalho fixando quais seriam os trinta pilares do cinema (6).

Sua lista se abre com O ANO PASSADO EM MARIENBAD, de Resnais, seguido de CIDADÃO KANE; LUZES DA CIDADE; OUTUBRO; UMA MULHER PARA DOIS; TEMPOS MODERNOS; AURORA; HIROSHIMA MEU AMOR; L’ÂGÊ D’OR; O ENCOURAÇADO POTEMKIM; LOLA MONTES; LADRÕES DE BICICLETA; UM CORPO QUE CAI; SOB OS TETOS DE PARIS; NAPOLEÃO; ACOSSADO; METRÓPOLIS; UMBERTO D; MÉNILMONTANT (de Dmitri Kirsanoff); OS PÁSSAROS; A AVENTURA; SIEGFRED; O MARTÍRIO DE JOANA ‘D’ARC; PUNHOS DE CAMPEÃO; O BOULEVARD DO CRIME; PRIMAVERA; ZERO DE CONDUITTE; O ÚLTIMO MILIONÁRIO; MEU TIO e INTOLERANCIA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A rigor, é de se estranhar nesta lista, a presença do desconhecido filme MÉNILMONTANT, de Dmitri Kirsanoff e PRIMAVERA, de Robert Z. Leonard. Quanto aos demais, todos são, reconhecidamente, grandes obras. Pode-se estranhar a ausência de um Visconti ou de um Ford, mas é preciso que se reconheça que, tirando os dois filmes citados acima, nada de se estranhar em tal relação.

Mesmo porque, quem conhece PRIMAVERA, como eu, e gosta de filmes musicais, sabe que realmente se trata de um grande melodrama, com a fortíssima presença de Jannete Mcdonald, que reinou nas operetas por um bom número de anos. Eu preferiria A VIÚVA ALEGRE, belíssima comédia com toda a sofisticação de Ernest Lubstch, mas PRIMAVERA é realmente um ótimo filme, de 1937, abrindo o mundo dos musicais para o cinema.

BEYLIE

Chego agora a um livro precioso, que muito me tem ajudado na programação dos filmes para o CINECLUBE TJMG. AS OBRAS PRIMAS DO CINEMA, de Claude Beylie. E é lógico que sua primeira citação seja exatamente A CHEGADA DO TREM NA ESTAÇÃO, dos Irmãos Lumière, o início do cinema, exibido em 1895, em Paris.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A partir daí veio destacando o que acha mais importante, como A HISTORIA DE UM CRIME, de Ferdinad Zecca, de 1901; VIAGEM À LUA, de Meliès, de 1902; O GRANDE ROUBO DO TREM, de Edwin S Porter, de 1903, até chegar a um filme como que maldito, O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, de Griffth, de 1915. Maldito por quê?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bem, certamente se não fosse o tema, esta obra poderia disputar tranqüilamente com O ENCOURAÇADO POTENKIM, o título de maior filme de todos os tempos. Feito no alvorecer do cinema, praticamente inventou tudo em termos de técnica narrativa, com cenas complicadas de corridas de cavalos, cercos, tiroteios, perseguições, panorâmicas e efeitos de montagem alternada, tudo para narrar o surgimento da Ku Klux Klan, que teria sido criada no sul dos EUA exatamente para corrigir as distorções do governo e controlar a criminalidade entre os negros. O filme é um hino a um mundo justo e humano, desde que sem negros no poder e com a Ku Klux Klan distribuindo sua incendiária justiça pelos EA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda hoje o filme é visto como racista e revanchista, em relação ao resultado da guerra civil norte-americana. E é indefensável no ataque que faz aos negros, genericamente falando, o que o tornou um trabalho difícil de ser defendido ideologicamente falando, ao contrário do que ocorre com o filme de Eisenstein, que comove até mesmo quem não é comunista mas que se coloca ao lado dos marinheiros explorados e injustiçados de O ENCOURAÇADO POTEMKIM.

Beylie tem outro grande acerto na sua relação, ao privilegiar diversas obras de um mesmo diretor, percebendo que o cinema não é um produto isolado e de momento de um ou outro artesão, mas que guarda uma grande unidade na obra de todos os principais diretores, na sua produção ao longo da vida.

Assim, do mesmo Griffith, cita ainda INTOLERÂNCIA, de 1916. De King Vidor, que anda meio esquecido, indica A TURBA, de 1928, bem como ALELUIA, de 1929 e O PÃO NOSSO, de 1934. De Robert Flaherty, aponta NANOOK, O ESQUIMÓ, de 1922.

Atento ao cinema em todo mundo, não deixa de destacar O GABINETE DO DOUTOR CALIGARI, de Robert Wiene, de 1919; na sua lista não podia faltar – como na minha – o gênio alemão de Erich Von Stroheim com o seu imperdível OURO E MALDIÇÃO; ou René Clair com seu ENTREATROS e ainda O MILHÃO: o Fritz Lang de METRÓPOLIS, M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF e RETRATO DE MULHER, todos desse que foi um dos maiores gênios do cinema; o show e as aulas de como se deve fazer um documentário da nazista Leni Riefensthal em TRIUNFO DA VONTADE; a sofisticação de Ernest Lubistsch em SE EU TIVESSE UM MILHÃO e ainda de SER OU NÃO SER; UMA HISTÓRIA DE AMOR (1932); LOLA MONTÈS e A CASA AO LADO, de outro fugido da Alemanha que realizou filmes belíssimos e inventivos que foi Max Ophuls; o Alfred Hitchcock de tantos sucessos como OS 39 DEGRAUS, PACTO SINISTRO e também JANELA INDISCRETA e outros tantos que fizeram belos filmes ao longo dos anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As extravagâncias de Beylie são mínimas, como A CONDESSA DESCALÇA e A TORTURA DO MEDO. É por isso que seu livro acabou por se impor como um dos melhores manuais sobre o cinema e é tanto citado por mim nos artigos que faça para o CINECLUBE do TJMG.

Esse crítico chegou ainda a uma posição de incrível justiça, arrolando A GENERAL, de Buster Keaton e, ao seu lado, EM BUSCA DO OURO e TEMPOS MODERNOS, ambos de Chaplin. Explico melhor: para os norte-americanos, Keaton é mais importante que Chaplin, o que é um pecado inominável. É preciso inventar um inferno para jogar esses e pecadores pelo resto da eternidade no fogo...

O problema é que Chaplin, bem próximo do comunismo, andou irritando profundamente a alma norteamericana em filmes como O GRANDE DITADOR. E ele falava de termos universais. Seu vagabundo nunca perde a esperança, mas sempre sai derrotado em direção ao infinito, embora esperançoso do que vem adiante. Ao contrário, Buster Keaton encarna como poucos a alma dos cidadãos dos EUA, ao sempre começar sendo humilhado em seus filmes para, no final, triunfar como vencedor absoluto. É o triunfo do individualismo, tão caro aos norteamericanos.

Bem, já é hora de transcrever aqui o artigo que escrevi em 1995 e que venho tentando corrigir ou do qual pretendo cobrir alguma falhas.

INVADINDO SEARA ALHEIA E DANDO MEUS PALPITES SOBRE OS 100 ANOS DO CINEMA

Minha primeira paixão cultural foi o cinema. Por isso, quando se comemoram os seus 100 anos, peço desculpas aos vizinhos de jornal para invadir seara alheia e sair falando dos filmes que mais me marcaram, sem a preocupação de limitá-los a 10 ou classificá-los pela ordem de importância. Reconheço, entretanto, de antemão, que minha tia estava coberta de razões quando dizia, em tom de censura, “- que esse menino nasceu com mania de dar palpite!”.

Durante os muitos anos em que assisti a todos os filmes, dos importantes aos banais, colecionando livros, jornais e revistas, sempre buscando um conjunto de informações desses que compõem o grosso da cultura inútil dos tempos contemporâneos, sonhei com uma ocupação atrás das câmaras. Vivendo minha juventude em Juiz de Fora, onde a televisão não tinha os apelos de hoje e as diversões eram eclesiasticamente dosadas, montei um diário onde cada cinema tinha um código. Assistia a um filme, lançava no caderno e fazia mil e uma anotações com o código em outras folhas destinadas a saber quantos filmes havia visto desse ator ou diretor ou desse país.

Nessa época, conheci uma dessas figuras realmente geniais, uma pessoa de origem muito humilde mas que tinha uma vocação para o cinema que nunca mais encontrei. Décio Lopes vivia e comia cinema. Tudo que sabia vinha dos filmes a que assistia compulsivamente como eu. Ele organizou, certa feita, não se sabe como, com a complacência da UFJF, um curso de cinema, que durou 4 meses. Nesse período, assistíamos a três ou quatro filmes por dia, além de ouvirmos palestras de professores como Alex Vianny e Leon Hischmann .

O apoio da Universidade possibilitou a vinda de filmes de diversas embaixadas, como os dos irmãos Lumière e outros de Méliès, que chegaram da França, bem como os grandes clássicos russos, “Potemkin”, “Ivan O Terrível”, “A Greve” e “A Mãe”. “Louisiana Story” esteve no Brasil por uma semana: Juiz de Fora estava no roteiro e assistimos a essa obra-prima de Robert Flaherty. Da Alemanha vieram filmes de Dreyer, como “Vampyr” e “A Paixão de Joana D’Arc”, “O Gabinete do Dr. Galigari”, de Robert Wiene, “Nosferatu” de Murnau e “Ouro E Maldição”, de Erich von Stroheim. Ao todo, nesses 4 meses, assistimos e reassistímos a 120 filmes: eu não perdi nenhum!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Décio Lopes tinha histórias incríveis. Uma vez, quando José Paulo Neto chegou do exílio, Décio passou a noite toda contestando suas colocações em torno de “Obra Aberta”, de Umberto Eco. No início da manhã, desesperado com a dialética de José Paulo, Décio entregou os pontos nocauteando o adversário, ao dizer que iria ler o livro para poder aprofundar as discussões noutra oportunidade.

Nesse ambiente, onde passávamos noites e mais noites discutindo filmes e seus diretores, acabei tornando-me um escravo dessa paixão, que cultivo até hoje, embora bem menos do que desejaria, pois o dia continua tendo apenas 24 horas.Mesmo assim, entendo-me um privilegiado nessa área, tanto que me animo, para desespero de minha tia, a dar alguns palpites sobre os melhores filmes da história do cinema.

Em termos de distância, o primeiro nome que destaco é o de Serguei Eisenstein. Se “Encouraçado Potemkin” é quase uma unaminidade, pelo sentido de movimento de massa e da estética da revolução, confesso minha admiração também por “Ivan, O Terrível”, que fala da gestação de um grande estado.

Outro gênio impossível de ser esquecido é o de Charles Chaplin, Difícil escolher sua melhor obra, pois “Tempos Modernos” e “Em Busca do Ouro” são, entre outros, dois instantes maravilhosos. O alemão Fritz Lang, que conheci nesse curso de cinema em JF, tem dois filmes pelos quais sou apaixonado: “Metrópolis” e “M, O Vampiro de Dusseldorf”. Aliás, algumas vezes andei citando o grande “penalista e filósofo do direito” Fritz Lang, colocando em apuros quem não o conhecia, que acabava tendo de aceitar tais citações para poder, discutindo-as, buscar outras conclusões. Tudo por causa de “M”, onde todos os marginais de Dusseldorf se unem para julgar um estuprador de crianças que estava assodando a polícia. Numa das grandes cenas do cinema, eles, numa velha cervejaria, indicam entre eles um que deverá, obrigatoriamente, fazer a defesa do estuprador.

Outro diretor que cultuo é o italiano Michelangelo Antonioni, de quem destacaria diversos filmes. Mas o que mais me marcou foi “Blow Up”, perfeita apresentação da civilização ocidental contemporânea e de suas futilidades. Ainda da Itália, como esquecer de “Rocco E Seus Irmãos” ou “O Leopardo”, de Luchino Visconti? Ou o impactante “O Bandido Giuliano”, de Francesco Rossi?

Como escolher uma obra mais marcante do genial espanhol Luiz Buñuel? Não saberia como optar por “Viridiana” ou “O Fantasma da Liberdade”. Em ambos existem cenas antológicas. No primeiro, a do banquete dos mendigos reproduzindo a Santa Ceia, de Da Vinci. No segundo, a descrição da loucura humana nos olhos de alguns animais atônitos, de um zoológico, a quem chegam apenas os ecos e o espoucar de bombas de uma repressão policial.

E John Ford? Admito que já assisti mais de 10 vezes a três de seus filmes: “O Homem Que Matou O Facínora”, “Paixão dos Fortes” e “Rastros De Ódio”. Qualquer um deles é indispensável.

Do Japão reservo um lugar todo especial para Akira Kurosawa, de quem assisti à maioria dos filmes. Dentre eles, destaco “Ran”, que me pareceu visualmente o mais exuberante, sem falar na cena final que representa, como poucos momentos, o absurdo da existência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Suécia existe um nome inesquecível que é o de Ingmar Bergman. Se seus filmes são terríveis no sentido de nos provocarem grandes depressões, exatamente porque lidam com a fragilidade humana, o certo é que “Morangos Silvestres”, “Gritos e Sussuros” e “Fanny E Alexander” são obras-primas.

Uma outra de minhas fixações é o cinema de Stanley Kubrik. Ao contrário dos que destacam “2001 Uma Odisséia no Espaço” ou “Dr. Fantástico” como suas obras máximas, se tivesse de apontar minha preferida indicaria “Laranja Mecânica”. De Alfred Hitchcock tenho duas preferências: “Um Corpo Que Cai”, o máximo de suspense a que chegou e “Os Pássaros”, que é o pavor na sua manifestação mais pura.

Se já excedi qualquer cota de razoabilidade, aproveito para falar de alguns outros nomes que creio marcantes. Como o de John Huston de “O Segredo das Jóias”; “O Tesouro de Sierra Maestra” e, mais recentemente, “A Honra Do Poderoso Prizzi”; ou de Marco Ferreri e o seu desconcertante “Crônica Do Amor Louco”. Ou de Billy Wilder e os seus impressionantes “Crespúsculo Dos Deuses”, “A Montanha dos Sete Abutres” e ainda de “Quanto Mais Quente Melhor”.

Não poderia esquecer o neo-realismo de Vittório de Sicca em “Ladrão de Bicicletas e o de Rossellini em “Roma, Cidade Aberta”. E Willian Wyler, autor de dezenas de grandes filmes como “Pérfida”, baseado numa peça de Lillian Hellmann. E do chocante realismo de “A Turba”, de King Vidor.

No campo dos musicais, destaque absoluto para “West Side Story”, de Robert Wise e “Cantando na Chuva”, de Stanley Donen. Não se pode esquecer contudo, de “A Roda da Fortuna”, de Vicent Minnelli que é também maravilhoso.

O francês Alain Resnais tem três filmes envolventes: “A Guerra Acabou”, “Providence” e “Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite”(7). Nesse filme há uma cena das mais desconcertantes ao se descrever o que a paixão faz nas pessoas. Romy Scheneider e Yves Montand, saídos de tragédias pessoais, encontram-se na noite e saem de carro por uma larga avenida. A polícia intervem porque eles estão na contramão. Assustados, eles pedem desculpas. Mas logo, retomam à contramão, sem se aperceberem de nada.

Tenho alguma adorações especiais mais recentes como “Blade Runner”, de Ridley Scott e “O Último Tango em Paris”, para mim o grande filme de Bertolucci, o belíssimo e nostálgico “Cinema Paradiso”, de Tuornatori e ”A Festa De Babette”, de Gabriel Axel . De Bertolucci, destaco ainda o incômodo e desconcertante “O Céu Que Nos Protege”. Para finalizar e ver se não irrito muito minha tia, lembro um grande filme brasileiro, a que assisti empolgado por diversas vezes que é “Deus E O Diabo Na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. Entre outras coisas aprendi com essa obra, quando emprestei o disco com sua trilha sonora , que discos e livros não foram feitos para serem emprestados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Coppola tenho dois filmes preferidos: “O Poderoso Chefão” nº 2, que consegue ser bem melhor do que o primeiro e “Apocalipse Now”, que nos mostra os valores da civilização capitalista em pleno Vietnan, quando as “playmetes” chegam num acampamento para dar tirinhos de água nos soldados.

Cito também o desconcertante “O Homem Do Prego”, de Sidney Lumet, que me impressionou terrivelmente quando a ele assisti pela primeira vez .

Mas vou ficando por aqui. Não agüento mais a auto censura que se pôs a gritar, pior do que minha tia, que o espaço já acabou há muito tempo e que ninguém tolera mais meus palpites.

Mas para que ninguém me chame de extravagante ou esquecido, cito o filme que encabeça a maioria das listas que vêem saindo na imprensa, “Cidadão Kane”, que realmente revelou toda a genialidade de Orson Wells.

E acho lugar para falar ainda de dois filmes dos quais raras pessoas se lembram, mas a que também assisti, como todos acima, diversas vezes, tanto quanto possível : “Dois Destinos”, do italiano Valério Zurlini e “Aquele Que Sabe Viver”, do também italiano Dini Risi.

Como se vê, depois de começar falando da minha lista de 10 melhores e acabar por arrolar 71 filmes, não há como se possa deixar de concordar com minha tia: ando, cada vez, dando mais e mais palpites ...

A REVISÃO

Revendo esta minha lista de 15 anos atrás, fico pensando qual foi a minha pretensão em me meter numa área tão cheia de entendidos de todos os lados, sem ter assistido, ainda, a alguns outros filmes indispensáveis a quem pretenda falar sobre todo o cinema, no mundo inteiro. E para cobrir um pouco minhas falhas, pergunto-me como pude esquecer-me de duas das obras máximas do expressionismo alemão, que foram A ULTIMA GARGALHADA e AURORA, ambas de Murnau?

Em se falando de Japão, e O IDIOTA, de Kurosawa? E, ainda de Kurosawa, ROSHAMON e VIVER? E os impressionantes e quase religiosos filmes YASUJIRO OZU, a começar pelo tocante CONTOS DE TÓQUIO, talvez o mais delicado dos filmes da história do cinema. Para tirar as dúvidas sobre a força desse autor, veja-se ainda MENINOS DE TOQUIO.

De Ford, recentemente disse que se tivesse de ficar preso em uma ilha só com um diretor e seus filmes, não teria dúvida em indicar a obra de John Ford. São mais de 130 filmes. Na maioria, gostosos de serem assistidos. Raras vezes Ford escorrega. E mais três de seus filmes me parecem também que não podem deixar de ser citados: O DELATOR, que fez na década de 30, falando de um traidor entre os que lutavam pela liberdade da Irlanda e o incrível CAVALO DE FERRO, ainda mudo, de 1924, que fala da construção da estrada de ferro que varou os EUA, com uma agilidade incrível. São quase duas horas de filme mudo e não há cansaço que nos faça sair diante da tela.

Mas, ainda de FORD, tenho um filme que revi há algum tempo e já reassisti diversas vezes, sempre encantado: DEPOIS DO VENDAVAL. Já li em algum lugar que este seria o maior filme de todos os tempos para um determinado crítico. Lamentavelmente não consigo localizar esta citação. Mas, como entretenimento inteligente, como cinema e como obra humana, este filme realmente está num patamar bem mais elevado do que os incontáveis trabalhos que tentaram captar seu clima ou seus efeitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O polonês Andrezej Wajda é outro autor que cresceu muito de importância nos últimos anos. O HOMEM DE MÁRMORE, que teve influencia até na queda do comunismo polonês, é obra indispensável, muito embora tenha sido filmado com uma péssima película, ainda dos tempos da dominação russa.

Da Polônia ainda cabe lembramos de Krzysztof Kieslowski e sua obra O DECÁLOGO, que tem passagens impactantes, como o capítulo dedicado ao mandamento que fala em honrar pai e mãe.

Já que falamos dos países do antigo Leste europeu, ou seja, detrás da cortina de ferro, e a obra do russo Tarkovski? Como deixar de lado, além de RUBLEV e o SACRIFÍCIO, filmes como o desconcertante STALKER e ainda o impressionante A INFANCIA DE IVÃ?

Da França, como pude deixar de lado NOITE E NEBLINA, documentário sobre os campos de morte da 2ª grande guerra do século passado e ainda HIROSHIMA MEU AMOR, ambas do renovador Alain Resnais? E a poesia que é O ATALANTE, de Jean Vigo? E o famoso NAPOLEÃO, de Abel Gance, um dos filmes sobre os quais as lendas são incríveis, entre as mais ricas da historia do cinema? E OS GUARDAS CHUVAS DO AMOR, um dos filmes mais bonitos e delicados do cinema, com uma trilha sonora incrível de Michel Legrand?

Só há pouco tempo pude ver A MORTE DE SIEGFRIED, a I parte de Os NIBELUNGOS, de Fritz Lang. É impressionante e Grunewald tem toda a razão em colocá-lo como um dos pilares do cinema que se fez a partir de então. O filme e do início da década de 20.

De Visconti, esqueci-me de um filme pelo qual tenho adoração, que é VIOLÊNCIA E PAIXÃO.

Em termos de um cinema mais novo, da segunda metade do séc. XX, não posso deixar de lembrar a obra do tcheco Milos Formam e seu formidável AMADEUS, bem como um compêndio da violência de Sam Peckinpah que é MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA, um dos maiores faroestes de todos os tempos, bem como a obra sempre criativa de Woody Allen, de quem escolho, entre tantas opções, TODOS DIZEM QUE EU TE AMO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outros filmes a que assisti recentemente também entraram para o rol dos meus prediletos por tudo que eles significam: ASSIM ESTAVA ESCRITO, de Vicente Minelli, que faz, como poucos, uma análise do sucesso a qualquer preço e da máquina de triturar talentos que é Hollywood; PUNHOS DE CAMPEÃO, de Robert Wise, um dos filmes mais contundentes sobre o mundo do boxe e as tragédias que existem em torno dele e, finalmente, SOMBRAS DO MAL, desconcertante e poderosíssimo filme de Jules Dassin, um dos muitos diretores norteamericanos que teve de sair dos EUA porque, perseguido, não tinha mais espaço para dar continuidade à sua obra.

Mais duas citações. O quanto poderoso e convincente é A BATALHA DE ARGEL, de Gillo Pontecorvo!!! O seu QUEIMADA, que esteve proibido por muitos anos, também foi recentemente lançado entre nós em DVD e mostrou o quanto é realmente importante na caracterização do mundo das colônias do caribe e o massacre que sofreram nas mãos dos portugueses e espanhóis.

Por último, uma das minhas duas ultimas paixões: a beleza do cinema do grego Theodoro – ou Theo – Angelopoulos, autor de filmes para serem vistos com calma, que valorizam enormemente a fotografia e a música e que, apesar de dolorosos nas histórias que contam, são maravilhosos. Veja-se o seu PAISAGEM NA NEBLINA, ou UM OLHAR DE CADA DIA ou ainda A ETERNIDADE E UM DIA. E agora por último mesmo, e o Réquiem que Emil Kusturika escreveu e dirigiu para o fim da Yugoslávia – ele é bósnio – em UNDERGROUND?

MAIS TRINTA

Os meus inicialmente dez melhores filmes da história do cinema chegaram a 71 filmes. Agora, com mais 33 dessa revisão, minha lista pula para 104 filmes. Ótimo. Posso, pelo menos, reivindicar este título: o autor de uma lista não de 100 filmes que seriam os maiores do mundo, mas 104. Divirtam-se.

NOTAS:

1-LAROUSE, 501 FILMES QUE MERECEM SER VISTOS, editada pela Larouse originalmente em Londres, em 2004 e no Brasil em 2009

2- BRAGA, Sérgio, em Resenhas, Releituras Reflexões, Cineclube TJ – 5 nos de história, edição do próprio TJMG, 2008, p. 45.

3- EL CINE – HISTORIA DEL CINE. TECNICAS Y PROCESSOS. ACTORES E DIRECTORES. DICIONARIO DE TÉRMINOS. 100 GRANDES PELÍCULAS. Edição da Larouse, cabendo a Núrya Lucena Cayuela a direção editorial e a Pablo Mérida de San Román a redação dos textos. A obra saiu em Barcelona, em 2003.

4- BERGAN, Ronald, CINEMA, HISTÓRIA - GENERO – CINEMA MUNDIAL- DIRETORES DE A-Z – 100 MELHORES FILMES. Edição da Zahar, 2007 .

5- EBERT, Roger, A MAGIA DO CINEMA – Os 100 melhores filmes de todos os tempos, Ediouro, 2004.

6- GRUNEALD, José Lino, UM FILME É UM FILME – A Cinema de Vanguarda de 60, que foi organizado postumamente por Ruy Castro, fez um trabalho fixando quais seriam os trinta pilares do cinema. Companhia das Letras, 2001.

7- BEYLIE, Claude, AS OBRAS PRIMAS DO CINEMA. 1ª Ed, abril de 1991, editora Martins Fontes.

8- IMPERDOÁVEL! Um Homem, Uma Mulher e Uma Noite não é de Resnais, mas sim do grego Costa-Gravas.

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