Cinema na Comunidade da Malhadinha
Por Cardes Amâncio
Fotos Cardes Amâncio e
Luciano Pereira da Silva
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Não eram bem oito horas da manhã e calor tropical de Palmas estava no ar. O dia já estava programado. Estávamos desde de segunda-feira produzindo a “Rota do Sal” na capital tocantinense, costurando apoios institucionais para o projeto e aquela sexta-feira era o arremate. A dupla, que até então tinha participado de todas as reuniões, se separaria. |
Partimos no mesmo horário, eu na companhia do professor Luciano, seguia para Brejinho de Nazaré, com passagem em Porto Nacional e como destino final a comunidade quilombola de Malhadinha. André foi de táxi moto para os estúdios da Rádio Criativa para participar do programa do tio Marcão, na seqüência reunião com o vice-governador. A impossibilidade de estarmos juntos em todos os importantes compromissos do dia foi resolvida no palitinho. Já sabem né, quem tira o maior escolhe... |
Na estrada ouvíamos a Rota do Sal sendo debatida no rádio, mas aos poucos as ondas da freqüência modulada foram rareando e as vozes se misturando a chiados, até que sumiram. Bem verdade que os ruídos estão sempre à espreita dos que se comunica m... |
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Em Porto fomos direto à prefeitura nos encontrar com o secretário de cultura, a cidade está nas margens do rio Tocantins e em meados de abril do ano que vem remando chegaremos lá. O rio aqui, tal qual em Palmas, é chamado de lago. Uma espécie de aneurisma - se esparrama lateralmente, se alimentando das praias naturais, das casas, animais silvestres, vegetação e da alegria dos que viviam em suas margens... |
Escrevo de um computador ligado à rede elétrica. Talvez você esteja lendo em outro. Precisamos de energia. Mas de qual delas? Seiscentos reais oferecidos para famílias que vão ter suas terras submersas é esmola das empresas riquíssimas que constroem as usinas. Energia para alimentar grandes empresas que pagam por kilowatts menos que os consumidores residenciais é dose.
Próxima parada Brejinho de Nazaré. Conheci a secretária de educação e cultura. André Capoeira se juntou a nós. Falamos do lixo midiático que invade as casas das pessoas – via televisão, jornal e outras ondas. Deixei na secretaria cópias de filmes da Avesso para serem exibidos nas escolas. Auxílio no contraponto de tanta informação sem prumo.
Antes de seguirmos para a Comunidade de Malhadinha, almoçamos com o senhor Sebastião Capoeira, pai de André. Um dos antigos de Brejinho, viu com os olhos as embarcações que seguiam comerciando até Belém do Pará, mesmo percurso que realizaremos na expedição cinematográfica Rota do Sal. Debaixo de um pé de manga tomamos café com requeijão caseiro. Seu Sebastião segurava uma muda de jabuticabeira. Me fitou e perguntou para mim ou a si mesmo por quê plantaria a muda, já que ela demora quinze anos pra dar frutas. A cidade é cheia de centenários. Seu Sebastião deve ser mais um, com seus cento e poucos anos estará quem sabe chupando jabuticabas com seus tataranetos. Se levantou e foi bater uma enxada ali perto. |
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Chegamos na comunidade. Munidos de projetor e caixa de som, gentilmente cedidos por Marcelo Silva da Public e Evaristo do Arco Íris, começamos a preparar o cinema no quilombo. Um senhor se achegou, agradeceu em nome da comunidade o fato de estarmos ali. Pediu pra na próxima vez avisar com antecedência, para que pudessem preparar um lanche... disse a ele que também estava feliz por estar ali e indaguei se já passara algum filme. Disse que sim, mas não era bem um “filme”... Era uma propaganda do governo, mostrando suas obras. Hoje então teremos cinema de verdade! Olhares atentos, risos, comentários entre eles. Eu podia perceber nitidamente que se identificavam com os que apareciam nos filmes. Exibimos “Candombe Do Açude”, “Olhar Calunga” e “Sonhos De Um Negro”. Filmados em quilombos e no caso do “Sonhos...” feito por um membro da comunidade. É um momento e tanto essas sessões especiais. |
Já tivemos o prazer de organizar outras: nos Calungas, na Comunidade do Açude, em favelas, escolas públicas e acampamentos do movimento dos trabalhadores sem terra . É como se um momento, na posse de um machado, eu pudesse detonar um aparelho de televisão. E dele saísse uma fumaça densa da fedentina da máquina de manipular e tornar dóceis seres humanos oprimidos.
Me lembro dos meus olhos mareados ao ouvir de uma senhora que “naquele momento ela tinha descoberto o sentido da palavra liberdade” - estávamos num acampamento de sem terra a beira do despejo judicial, assistimos filmes avessais com eles, debatemos e no final da sessão os presenteei com uma bandeira do Brasil. Sob efeito das batidas dos tambus e do contato com uma realidade que ela sabia sua, mas nunca tinha visto em nenhum canal de televisão, essa senhora fez suas conexões intelectuais sobre o sentido da liberdade. Foi bonito.

Em Malhadinha não foi diferente. Deu pra ver o brilho nos olhos das pessoas. Depois dos filmes falamos sobre resistência, auto-estima, cabelos in natura versus alisados... A prosa rendeu, saímos todos “sastifeitos”, como diz Tom Zé. |
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