Diário de canoa 01
Aline Cantia
A estrada se vai sozinha, deitada em terras férteis. Terras banhadas pelas águas do Brasil.
Despeço-me deste aconchego de lar para trocar as chaves. É hora de pisar em outros solos para saber como se planta do lado de lá. Mais uma vez é hora de silenciar para ouvir. Para escutar os passos daqueles que vão comigo. Colecionar despedidas. Viajar pelo norte e pelo sertão. Pelos rios e pelas bahias. Esquecer o que era para me permitir ser outras.
A viagem vai ser longa e eu volto de meio-dia pra tarde. Na hora que sonhar um peixe e a manhã acordar encostada nos meus ombros.
São daqueles sonhos de criança.
Pai, e estas terras que a gente vê pela janela do carro?
O quê que tem?
Tem dono?? Tudo aí tem dono, pai?
Risada geral.
Pois é claro que tem dono, dizia o pai, dizia a mãe.
Não entendia porque era tão claro assim. E ficava na minha viagem de criança toda vez que meu pai colocava a gente no fusquinha verde. Ele nos acordava cedo, quando o sol ainda tirava um cochilo. Era um cheiro de empadinhas de queijo e suco de goiaba, misturado ao cheiro de estrelas que escondiam as surpresas da manhã. Dias que eu mais gostava. Ainda hoje quando me levanto no escuro tenho a sensação de que vamos sair para uma viagem regada à descobertas.
Gostava de fingir que dormia para abrir os olhos e desvendar os segredos da estrada. Me fascinavam aquelas casinhas achadas no meio de montanhas, rios e mangueiras. Era bom imaginar quantas pessoas viviam lá, o que pescavam, como iam para escola. E principalmente o que os mais velhos contavam para as crianças como eu. E me autorizava inventar essas histórias.
Lembro de uma vez que inventei que havia no Rio Doce, o bicho dos namorados. Essa história me acompanhou um bom tempo da vida. Quando no meio da estrada descobri que aquele riozinho que passava atrás da minha janela caia no Rio Doce, aí que a história me seguiu mesmo. Já que era doce, devia ter várias casinhas de João e Maria – lá no fundo. Seriam Joões e Marias peixes. Casinha de chocolate, minhoca e caramelo escondida entre as plantas aquáticas para que o bicho dos namorados nunca encontrasse. Ah, mas este bicho aprontava. Não podia ver uma mulher lavando roupa na beirada do rio que ficava na espreita. Era ela se distrair e pronto. O bicho roubava a roupa mais colorida e se transformava num peixe bonito e estiloso. Aí seguia direto para o fundo do rio, a procura da casa do João e da Maria (que na minha história eram namorados).
- Oi, você sabe da casa da Maria? Mandaram um presente pra ela lá da beira do rio, perguntava para os peixinhos mais ensolarados.
E existiam muitos finais para esta história que toda hora mudava de cheiro.
São daqueles sonhos de criança.
Agora passo para outras histórias. |